sexta-feira, 1 de agosto de 2014

MESTRE MORAES


MESTRE  MORAES

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Pedro Moraes Trindade, conhecido como Mestre Moraes, famoso difusor da capoeira de Angola, nasceu na Ilha da Maré, em 9 de fevereiro de 1959. Seu pai, também capoeirista, era -- de igual modo, adepto da capoeira de Angola.
Moraes começou a praticar a capoeira quando tinha oito anos, ocasião em que freqüentou a academia de Mestre Pastinha que já estava cego e não dava mais aula. Nessa altura da vida Mestre Pastinha passou o comando de sua academia para os alunos João Grande e João Pequeno.
Desde a mocidade, Mestre Moraes foi um apaixonado pela capoeira de Angola. “Eu nasci com a missão de aprender e ensinar a capoeira de Angola”, afirma ele. O  estilo de Angola era praticado pelos escravos africanos como meio de defesa contra os maus tratos dos colonizadores. Era ensinado aos mais novos pelos escravos mais velhos, e assim passou de geração a geração, até a década de trinta do século passado. Sobreviveu, apesar da perseguição sofrida pelos  seguidores. Na Guerra do Paraguai, por exemplo, foram enviados para o campo de batalha para serem exterminados. Nos anos trinta, Mestre Bimba criou um novo estilo de capoeira mais ao gosto da classe  dominante. A primeira apresentação dessa nova capoeira, chamada regional, foi em palácio, para o Presidente Getúlio Vargas. A capoeira de Angola tem como principais defensores, Mestre Pastinha e seus discípulos, João Pequeno e João Grande. É praticada por artesões e proletários: sapateiros, pedreiros, estivadores, açougueiros, porteiros e estivadores. 
Em 1970, Mestre Moraes mudou-se para o Rio de Janeiro de onde voltou após a morte de Pastinha, treze anos depois. De regresso a Salvador, fundou o Grupo de Capoeira Angola Pelourinho (GCAP), com o objetivo de transmitir e preservar os ensinamentos que recebeu de seus mestres. Além de presidente do GCAP, é professor de Inglês, Mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia, doutor em Cultura e Sociedade pela mesma universidade e compositor de música de capoeira. Seu disco “Roda de Capoeira” foi indicado ao Grammy, em 1984.
Apaixonado pelo estilo de Angola, afirma: “Eu acredito que nasci com a missão de aprender e ensinar a capoeira”. Durante os últimos quarenta e cinco anos não tem feito outra coisa senão aprender e ensinar capoeira,  estabelecer relações com outros capoeiristas, pesquisar e analisar a capoeira e realizar trabalho de campo.
Em entrevista a Claudiane Lopes revelou que para restabelecer o prestígio da capoeira de Angola, e difundi-la em outros países, teve de ingressar na UFBa e estudar inglês e literatura.
 Mestre Moraes leciona português e inglês no sistema público de ensino.
O GCAP tem sede em Salvador mas possui escolas de capoeira no Ceará,  Rio Grande do Sul, São Paulo e Japão. “Nós do GCAP visamos sensibilizar, plantando sementes e orientando pessoas que são vozes levantadas contra o preconceito e o racismo. Em todos os momentos da nossa história, a capoeira tem sido uma arma de resgate e cidadania. O  GCAP é o único grupo voltado para a questão sócio-política”.
 

"A história nos engana.
Diz tudo pelo contrário.
Até diz que a abolição
Aconteceu no mês de maio.
A prova dessa mentira
É que da miséria não saia.
Viva vinte de novembro
Momento pra se lembrar
Não vejo em treze de maio
Nada pra comemorar
Muito tempo se passou
E o negro sempre a lutar
Zumbi é nosso herói
Zumbi é nosso herói, colega velho
Do Palmares foi senhor
Pela causa do homem negro
Foi ele quem mais lutou
Apesar de toda luta, colega velho
O negro não se libertou..."



(Mestre Moraes)




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quinta-feira, 31 de julho de 2014

MESTRE JÕAO GRANDE


MESTRE  JOÃO  GRANDE
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João Oliveira dos Santos, conhecido como “João Grande”, Mestre de capoeira, nasceu em Itagi, no sul da Bahia, em 15 de janeiro de 1933.
Cresceu em Salvador e aos 20 anos se encantou com a capoeira. “Foi Deus que me mandou a capoeira”, diz ele.
Aluno dos Mestres Pastinha e  João Pequeno, partiu para os Estados Unidos onde mantém em Nova York, há mais de vinte anos, o  "Centro de Capoeira de Angola".
Em 1981, Mestre Moraes  levou João Grande para participar do Festival de Arte Negra de Atlanta. Ele criou raízes nos Estados Unidos, de Atlanta mudou-se para Nova York onde fixou residência e abriu uma academia, denominada “Capoeira Angola Center”.
João Grande encantou os aficionados da capoeira e se tornou conhecido mundialmente. Recebeu  o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Nova Jersey, é doutor em Letras Humanas pelo Upsala College de East Orange (Nova Jersey) e foi homenageado com o prêmio National Heritage Fellowship (1995),  honraria de grande prestigio na América do Norte.
João Grande é adepto do estilo africano adotado por Mestre Pastinha e usa metáforas que lembram a Natureza:
 “Eu sou fruta madura,
  que caí do pé lentamente.
  Na queda largo semente,
  que procura terra fresca
  pra ser fruta novamente “.


O "Capoeira Angola Center" está cheio de motivos que lembram a Bahia e sua gente. É um ambiente afro-brasileiro em plena metrópole novaiorquina.
Em 1970, Jõao Grande começou a viajar  pela África, Ásia, Estados Unidos e Brasil, ensinando capoeira a  estudantes  de  universidades, escolas elementares e organizações  culturais. Hoje, com mais de 80 anos, é uma referência internacional. Dança, canta e ginga como ninguém. Recentemente esteve em Fortaleza, onde participou mais uma vez de um  evento  afro-brasileiro.
João Grande é a personificação da capoeira de Angola.  ‘Ele leva dentro de si uma animada roda de capoeira”, dizem os críticos. “Minha missão, diz ele, é levar a capoeira pelo mundo, difundir a capoeira de Angola para toda a parte para onde eu for.  A capoeira é uma dança, um esporte, uma arte, uma profissão, uma cultura. Dependendo de como for utilizada, pode se transformar em uma luta, luta que não machuca ninguém. Tudo que você faz é capoeira. Dormindo, dirigindo, comendo,  você, sem perceber,  está fazendo capoeira. Capoeira é para homem, menino e mulher. Só não aprende capoeira quem não quer’.

 
 
 


MESTRE JOÃO PEQUENO


MESTRE JOÃO PEQUENO

http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Pequeno


João Pereira dos Santos, conhecido como João Pequeno, nasceu em Araci, em 27 de dezembro de 1917, sendo seus pais Maximiliano Pereira dos Santos (vaqueiro na Fazenda Vargem do Canto, em Queimadas) e Maria Clemença de Jesus (ceramista, descendente de índio).
Aos quinze anos, forçado pela seca que atingiu a região, fugiu a pé, caminhando até Alagoinhas e, algum tempo depois, alcançou Mata de São João, onde se fixou durante dez anos. Trabalhou em uma plantação de cana de açúcar, no ofício de “chamador de boi” Data desta época seu primeiro contato com a capoeira, que aprendeu com o ferreiro Juvêncio, morador da Fazenda São Pedro.
Aos 25 anos, mudou-se para Salvador, onde foi condutor de bondes, servente de pedreiro e mestre de obras. Quando operário da construção civil, um colega de nome Cândido, ao notar o seu interesse pela capoeira, numa brincadeira no intervalo do trabalho, indicou o feirante Barbosa para introduzi-lo na arte e este o levou para a roda da “Cobrinha Verde” que acontecia embaixo de uma árvore no Chame-Chame.
Certo dia, estando em uma roda no Terreiro, apareceu um senhor convidando os interessados a comparecerem ao Bigode, antiga fábrica de sabonetes. Ao chegar lá, João se inscreveu na academia e passou a seguir os passos daquele que viria a ser o grande mestre Pastnha. Pouco tempo depois João Pereira passou a se chamar João Pequeno, foi elevado a categoria de treinel, e começou a ensinar capoeira a todos que por ali passaram.
Em fins da década de sessenta, com o afastamento de Mestre Pastinha, João Pequeno o substituiu. Ao passar o comando de sua academia,  Pastinha exclamou: “João, tome conta disto, porque eu vou morrer mas morre somente o corpo. Em espírito, estou vivo. Enquanto houver capoeira o meu nome não desaparecerá”.
Na academia de Mestre Pastinha João Pequeno se tornou um profissional respeitável. Ensinou capoeira a: João Grande, Morais, Curió e outros grandes capoeiristas que por ali passaram.
João Pequeno também foi feirante e carvoeiro. Como carvoeiro teve grande número de fregueses e chegou a ser apelidado de “João do Carvão”. Residiu inicialmente no Garcia, em um barraco perto do Dique do Tororó. Depois, constituiu família e construiu uma casinha na “Fazenda Coutos”, subúrbio de Salvador. Ali recebeu  capoeiristas famosos, de várias partes do mundo.
Para João Pequeno o capoeirista tem de ser uma pessoa educada; “uma boa árvore para dar bons frutos. A capoeira, dizia modela o corpo e educa a mente. Serve de terapia e pode ser usada de várias formas. É um processo de desenvolvimento, uma luta criada pelo fraco para enfrentar o forte, uma dança, e como dança não machuca quem a pratica. O  bom capoeirista sabe parar o pé para não causar dano no adversário”.
Em 1892, depois da morte do Mestre Pastinha, João Pequeno reabriu o Centro Esportivo de Capoeira de Angola no Forte Santo Antônio Além do Carmo. Dalí lançou a capoeira para o mundo.
É Cidadão Honorário de Salvador, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Uberlândia e Comendador da Ordem do Mérito Cultural (título outorgado pelo  Presidente Luiz Inácio da Silva) e Grão-Mestre da Ordem do Mérito dos Palmares, pelo Governo de Alagoas..
Cercado pela admiração dos seus discípulos, João Pequeno faleceu em Salvador, no dia 9 de dezembro de 2011. Seu aniversário é comemorado como um importante evento que “se realiza todos os anos em uma grande roda, com a participação de vários mestres da capoeira.
 
 
 
 






terça-feira, 29 de julho de 2014

FRANKLIN MACHADO


FRANKLIN  MACHADO
franklin+machado


Franklin Machado, conhecido como Frnklin Machado Nordestino, advogado e jornalista dedicado à xilogravura e ao verso popular, nasceu em Feira de Santana, em 1943. “Maxado Nordestino, diz ele, foi meu nome quando me lancei profissionalmente no cordel. Franklin Maxado é meu nome artístico e literário, daí Franklin Machado Nordestino. Em xilogravura assino F. Maxado ou somente F.M. pois diminui o número de  letras para cortar na madeira. Maxado para fixar uma marca e Nordestino porque no sul me identificaram como “o nordestino” e isso reafirma minhas origens e cultura”.

Aos 16 anos foi  para o Rio de Janeiro onde viveu alguns meses. Voltou para a Salvador, e terminou o curso secundário no Colégio da Bahia. Ficou um ano sem estudar, Depois, ingressou na Universidade Católica e na Universidade Federal da Bahia onde cursou, respectivamente, direito e jornalismo. Fez teatro com Diolindo Checucci, escreveu uma peça, “A Guerrinha des Boneques” (que permaneceu inédita), e publicou dois livros: “Album de Feira de Santana” (desenhos e história) e “Protesto à Desuman-Idade” (poemas).

Formado, militou na imprensa baiana, trabalhando no “Jornal da Bahia”, de tradicional família feirense. Fundou a primeira sucursal dum jornal e de uma emissora de rádio no interior do estado (da qual foi diretor durante três anos). Depois, a convite do jornalista Juarez Bahia, mudou-se para São Paulo, onde passou quinze anos.
Em São Paulo enfrentou dificuldades. “Muitas, confessa, principalmente por contestar muitas ordens em locais de trabalho”. E justifica, dizendo: “A gente já chegou formado, com uma cultura de raiz ou de resistência, e isso contrariava muitos conceitos dos filhos de estrangeiros que ganhavam dinheiro no sul e se achavam donos da verdade. Podia dizer que também era de formação socialista e, naquele foco do Capitalismo, em pleno "Milagre Econômico", não podia discutir minhas idéias e pensamentos livremente. Trabalhei um ano na Folha de São Paulo, no Diário Popular, na sucursal de A Tribuna, de Santos, e no Diário do Grande ABC, onde vi iniciar a carreira do sindicalista Lula. As redações eram censuradas  e a notícia tinha que ser objetiva e direta. Certos fatos não se podiam dar, isso chocava com a minha formação de repórter da escola do Jornal da Bahia, dirigido por João Falcão e Florisvaldo Matos, que era a de noticiar o que  se sabia e se via com palavras de uso corrente e sem termos difíceis”..

Retornando á Feira de Santana, passou a se dedicar integralmente à xilogravura e à poesia de cordel. Seus versos, sem perder suas origens jornalísticas, abordam temas de caráter social e político, quase sempre satíricos. São assuntos os mais diversos, histórias infanto-juvenis, lendas, casos escabrosos, romances exóticos, denúncias, temas históricos  e opiniões pessoais. São exemplos: “Eu quero ser madamo e casar com feminista”, “Debate de Lampião com uma turista americana” O Sapo que desgraça o Corinthians O Japonês que ficou roxo pela mulataO crioulo doido que era um poeta  popular, O jumento que virou gente, Vaquejada de sete peões pra derrubar uma mineira, O romance do vaqueiro marciano da égua, Carta dum Pau-de-arara apaixonado pra sua noivaMaria Quitéria, heroína baiana que foi homem, Profecias de Antonio Conselheiro - O sertão já virou mar, A alma de Lampião faz misérias no NordesteA Volta do Pavão MisteriosoPapagaio e as macacas que não estão na mata (uma fábula urbana de bichos)” e “O pulo do Gato-Mestre, etc. Seus folhetos são vendidos pelo país inteiro. Escreveu também livros sobre poesia popular: “O que é a literatura de cordel”, “O cordel televisivo – futuro, presente e passado da literatura de cordel” e “Cordel, xilogravura e ilustrações”. Quase todos esgotados, são de leitura obrigatória para  pesqusadpres e curiosos. A Editora Hedra organizou uma antologia com cinco dos seus mais de duzentos trabalhos produzidos em trinta e três anos de profissão. Sempre se orgulhou de defender minorias.

“Viajei muito pelo Brasil, diz ele, me divulgando e pesquisando, principalmente pelo Nordeste. Dizem que  renovei o cordel, que estava moribundo, trazendo temas novos, recriando antigos e  dando consciência  aos profissionais,  estimulando os mais velhos a publicar, tanto que o prof. Raymond Cantel da Universidade francesa da Sorbonne me colocou como um divisor entre o velho e o novo Cordel. E assim sou, estudado, traduzido e publicado na França, onde o cordel já acabou e é só reminiscência.

A infância e da adolescência estão bem vivos em sua memória. Com nostalgia, recorda: “Feira de Santana, tinha a sua grande-feira livre com cegos cantadores, forrós pé de serra, sanfoneiros e cantores, principalmente vindos de outros estados nordestinos, o que nos deixava um sotaque mais característico, diferenciando nós, feirenses,  do falar dos baianos da capital, embora seja a distância geográfica pequena. Tive influencias em contato com vaqueiros, camelôs, feirantes, empregadas negras  e gente de Candomblé e de Capoeira, com os poetas Antonio Alves, com o pernambucano João Ferreira da Silva, Erotildes Miranda  e mais cearenses, potiguares, piauienses, sergipanos, alagoanos, paraibanos. O que me fez  inspirar e compor depois a música "Onde o Nordeste se Encontra no Nordeste", que mistura cordel, xaxado, chula, aboios  e samba de roça e que foi finalista no Festival "Vozes da Terra" da Prefeitura de Feira”.

Assim são Franklin Maxado, sua grandeza, seu cordel, sua xilografia.
 
 
 
 
 
 
 
 
 





quinta-feira, 24 de julho de 2014

MANUEL MAURÍCIO REBOUÇAS


SEPULTAMENTO EM IGREJAS



Manoel Maurício Rebouças nasceu em Maragogipe, no ano de 1800.

Em 1831, colou o grau de doutor em Medicina, Universidade de Paris, onde defendeu tese entítulada “Dissertacion sur les inhumations em général”  Antes, na mesma cidade, formou-se em Bacharel em Ciências e Letras.
Em 1831, foi nomeado lente, por concurso, de Botânica Médica e Zoologia da Faculdade de Medicina da Bahia, assim permanecendo até 1861.
Portador de vários títulos, dos quais destacamos o de Conselheiro do Imperador e  Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro.

Revela Eduardo Sá Menezes que o Dr.Rebouças, segundo Sacramento Blake, escreveu volumosa bibliografia, hoje desaparecida, cujos originais foram submetido à apreciação do Dr. Francisco Paula Cândido, seu colega em Paris (Memória Histórica da Faculdade de Medicina da Bahia).

 “O Dr. Rebouças foi um dedicado homem de ciência e um grande patriota. Como médico e professor, com efeito, deu provas do seu valor; na qualidade de cidadão, sobretudo nas lutas da Independência, mostrou-se de um heroísmo extraordinário” (Ibidem).
 
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  SEPULTAMENTO NAS IGREJAS
A transmigração da família real para o Brasil desencadeou uma série de mudanças na rotina e nos costumes brasileirtos. A grande preocupação da época era civilizar o Brasil, e um dos caminhos apontados era o do desenvolvimento da Higiene e da Medicina.
Nesta atmosfera de mudanças, surgiu, em 27 de dezembro de 1825, um artigo em um dos jornais da Corte  que causou reboliço. O autor, usando um pseudônimo, tecia elogios ao governo imperial pelo fato de ter proibido o sepultamento nos interior das igrejas e fazia uma série de acusações ao clero, acusando-o de  incentivar o enterramento nas campas colocados no chão das igrejas católicas, prática que, na concepção do articulista, causava dano à saúde. Os gases miasmáticos exalados pelas campas escapavam se espalhavam pelo interior das igrejas e saia para as ruas, causando epidemias. Para ilustrar tal  afirmação relatava que ele próprio, ao entrar em uma igreja no Rio de Janeiro, “foi obrigado a sair correndo devido ao mau cheiro exalado das campas da nave central.” Afirmava que os padres “procuravam ganhar dinheiro com os enterros, perpetuando, assim um hábito nocivo à saúde da população. Afirmava também  que a prática da inumação nas igrejas era inspirada por superstições criadas pelo próprio clero com o intuito de pressionar os fieis. Uma dessas crenças era a dizia que aqueles que não fossem sepultados no espaço sagrado dos templos não seriam salvos no dia do Juízo Final.

O padre Luiz Gonçalves dos Santos (1767_1844), mais conhecido como Padre Perereca, respondeu ao articulista desconhecido citando os enterros cristãos da Roma antiga, dizendo textualmente: “... que remédio se ha de dar para que os mortos não infeccionem os vivos? (...) enterre-se o defunto hum só em cada cova, e seja coberto de bastante terra, pelo menos cinco palmos de altura, tape-se a cova com sua campa de madeira, ou de pedra, ou de ladrilho; e não se abra para ali se sepultar outro cadáver, senão passados dois anos. Tapar bem os corpos com terra é suficiente para conter os miasmas dentro do solo”.

A tese de Manoel Maurício Rebouças, gira em torno desta polêmica. Condena as inumações nos templos religiosos, fundamentando-se em  uma casuística considerada fidedígna pelas autoridades de então. O primeiro caso relatado é o do médico italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714) e faz  referência a um coveiro que queria roubar um cadáver recém-sepultado. “Assim que abriu a cova, dizia  Ramazzini, o coveiro foi sufocado, e caiu morto sobre a campa que violara”. Outro caso é o de Henri Huguenot, decano da Faculdade de Medicina de Montpellier, que relata que no dia 17 de agosto de 1744, Pedro Baffagette, couveiro da Confraria dos Penitentes, encarregado de enterrar Guilherme Boudou em uma das covas da Igreja de Nossa Senhora de Montpellier, foi acometido de convulsões e ficou paralisado. Um frade que se ofereceu para salvá-lo, perdeu a respiração assim que o agarrou . pelo casaco e padeceu de “palpitações durante a noite inteira. Ficou tremendo, e só se recuperou depois de uma sangria”.
A tese foi muito comentada mas, não obstante sua repercussão no meio médico, o sepultamento no interior das igrejas continuou até  meados do século XIX nas importantes cidades brasileiras como Salvador e Rio de Janeiro bem como em Ouro Preto, São João Del Rei e Tiradentes.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

JULIANO MOREIRA


JULIANO  MOREIRA
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Juliano Moreira,  precursor da  psiquiatria científica brasileira, nasceu em Salvador em 6 de janeiro de1873, sendo seus pais uma simples empregada doméstica e um humilde funcionário da Prefeitura..

Começou a estudar no Colégio D. Pedro II, e depois no Liceu Provincial.  Aos 13 anos de idade foi perfilado por Manoel do Carmo Moreira Júnior, servidor municipal. Após os preparatórios, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia, pela qual recebeu o grau de doutor em medicina em 1891, aos 18 anos, após defender tese sobre “Sífilis Maligna Precoce”. Essa tese mereceu honrosas referências por parte do sifilógrafo francês Buret e do neurologista Raymond.

Durante o curso médico, sempre através de concursos em que saiu vencedor, foi interno da Cadeira de Moléstias Cutâneas e Preparador de Anatomia Médico-Cirúrgica.
Cinco anos depois de formado, se submeteu ao concurso para professor da Faculdade de Medicina. O fato se tornou famoso nos anais daquela casa de ensino. Dede cedo, os portões ainda não tinham sido abertos, uma multidão de estudantes se postava no Terreiro de Jesus, aguardando o resultado. Eles tinham acompanhado o concurso de perto, lotando o salão nobre. Os estudantes queriam impedir que o jovem candidato, um negro, fosse injustiçado por uma banca examinadora predominantemente escravocrata. Abertos os portões naquela manhã de 1896, os futuros médicos tiveram uma surpresa: Juliano Moreira tinha recebido 15 notas dez !!!. A vitória foi comemorada até altas horas da noite. Juliano era muito querido e agora, aos 23 anos de idade, se tornara o professor mais jovem da Faculdade de Medicina.
“Em seu discurso de posse, em maio de 1896, Juliano Moreira descreveu de forma tão elegante quanto contundente, o que parece ser sua experiência pessoal com relação ao marcante preconceito de cor existente na sociedade brasileira de então” (Ana Maria Oda e Paulo Dalagalarrondo).
Juliano permaneceu em Salvador  até 1902. Neste período publicou diversos artigos na “Gazeta Médica da Bahia” e em periódicos da França e da Inglaterra, sobre  lepra, bouba, leishmaníase cutânea-mucosa, sífilis, micetomas, foi um dos fundadores da Sociedade de Medicina e Cirurgia  e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia.
Entre 1895 e 1902, realizou uma série de viagens à Europa, para tratar-se de tuberculose pulmonar, contraída pelo excesso de dedicação à pesquisa e ao estudo.  Aproveitando as oportunidades, freqüentou vários cursos sobre doenças mentais, realizou estágio  de anatomia patológica com Virchow e visitou as clínicas psiquiátricas mais importantes da Alemanha, Inglaterra, Escócia, Bélgica, França, Itália, Áustria e Suíça.
Na Bahia, a vida de Juliano não foi fácil, pois teve de lutar contra “as amarras de um sistema hierárquico discriminador”., até que surgiu o convite do Ministro José Seabra para mudar-se para o Rio de Janeiro e assumir a direção do Hospital Nacional de Alienados, cargo que exerceu de 1903 a 1930. Como diretor do Hospital Nacional de Alienados, tornou-se o grande divulgador da psiquiatria científica brasileira, fundou os Arquivos Brasileiros de Medicina, a Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins e representou o Brasil em congressos médicos, na Europa e nos Estados Unidos (Berlim, em 1900, do qual foi eleito Presidente;  Lisboa, em 1906; Amsterdã e Milão, em 1907; Londres e Bruxelas, em 1913) e ingressou em  várias sociedades científicas dos Estados Unidos, Alemanha, França e Inglaterra.
Em 1911, foi nomeado diretor da Assistência Médico-Legal dos Alienados, ocasião em que criou o Manicômio Judiciário.

Em 1928, foi convidado para realizar conferências em universidades Japonesas, em  Kioto, Sendai, Osaka e Tokio, quando foi condecorado com a Ordem do Tesouro Sagrado, pelo Imperador Hirohito.

Faleceu em 2 de maio de 1933, na cidade de Correias, no Rio de Janeiro, para onde se mudara, devido à tuberculose.ul
Juliano Moreira publicou diversas trabalhos, dentre os quais destacamos “A evolução da Medicina no Brasil”, obra que realçou, ainda mais, os dotes deste cientista, um dos maiores do Brasil.
Um fato histórico pouco conhecido é a visita de Albert Einstein à Academia Brasileira de Ciências, realizada em 7 de maio de 1926, ocasião em que pronunciou uma conferência em francês. O cientista se surpreendeu ao verificar que a presidência dos trabalhos era exercida por “um senhor de olhos grandes e penetrantes, pele escura, e franzino”, famoso em todo o mundo. Este cientista era Juliano Moreira, Presidente de Honra daquela Academia, Vice-Presidente e Presidente várias vezes reeleito, reconhecido como um grande médico e “ume sábio, no mais amplo e rigoroso significado dessa expressão”.

Na Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, Juliano foi eleito Presidente Perpétuo.
Segundo o discípulo Afrânio Peixoto, “Juliano era múltiplo. Foi médico, tropicalista, dermatólogo, sifilógrafo, alienista, psicólogo, naturalista e historiador da Medicina”. Realmente, sob qualquer ângulo em que examinarmos  sua história de vida,  ela se mostra excepcional, extraordinária!




quinta-feira, 26 de junho de 2014

LUIS ANSELMO DA FONSECA

LUIS  ANSELMO  DA  FONSECA

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Luis Anselmo da Fonseca nasceu em Salvador, no ano de 1842.
Sarcástico, “a ele se atribuem inúmeros ditos de espírito, como de que,”os baianos só se reúnem  para a morte”
Grande abolicionista, escreveu “A Escravidão, o Clero e o Abolicionismo”, na qual tentou provar que o clero da época, não defendeu, como devia, a abolição da escravatura nem lutou pela causa dos oprimidos.
Fez os preparatórios capital baiana e depois ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, pela qual foi graduado em medicina em 1875, depois de defender tese doutoral intitulada “Quais as propriedades químicas, as ações fisiológicas e os efeitos terapêuticos do cloral e do clorofórmio? Em que relação se acham?”.
Ocupou, na Faculdade de Medicina da Bahia, os seguintes cargos: Concorrente à Seção de Ciências Acessórias (1877 – 1880). Preparador interino de Física (1882-1883). Professor Adjunto, por concurso, da cadeira de Higiene e História da Medicina (1883). Lente de Física Médica (1891-1901). Professor da cadeira de Higiene (1903). Professor Jubilado (1914).
Diretor do Hospital de Febre Amarela (hoje Hospital Couto Maia), de 1880 a 1884. Membro do Conselho Sanitário do Estado. Vereador do município de Salvador (1881 a 1884). Professor de Psicologia, Lógica e História dos Métodos e Sistemas Filosóficos do Instituto  Oficial do Ensino Secundário, depois denominado Ginásio da Bahia (1890).
Foi o Dr. Luís  Anselmo da Fonseca destacado médico, professor , homem de letras e profundo conhecedor da língua portuguesa.
De sua autoria é o “Projeto para reforma do ensino secundário da Bahia”,bem como outros trabalhos sobre assuntos os mais diversos.
Mereceu de Caio Moura o seguinte elogio: “Na Bahia, não falando dos que fazem profissão de escrever, raros serão os que, mais do que o Prof. Fonseca, hajam escrito” (Eduardo Sá Oliveira).
Sua Memória Histórica da Faculdade de Medicina, referente ao ano de 1891, é considerada uma das melhores. Nela, dentre outros comentários, destaca-se o referente ao estilo livresco que caracterizava o ensino ministrado pelos professores da  Faculdade de Medicina, até 1866, ano em que surgiu a “Gazeta Médica da Bahia”: “A verbosidade, mais ou menos abundante, a memória vigorosa, a facilidade de raciocinar sobre idéias abstratas, a destreza na dialética, a erudição, ainda que nem sempre muito profunda, os requintes do classicismo gramatical, o gosto teatral, a ênfase, as exclamações, eram as qualidades por excelência e os dotes de eleição que não podiam faltar aos que ambicionavam a admiração e o renome” .
Além de médico, professor, homem de letras e grande abolicionista, foi Anselmo da Fonseca filósofo e polemista notável.
A propósito do espírito polemista, é conhecido nos meios médicos da Bahia o rumoroso  afaire do Prof. Anselmo da Fonseca com o Prof. Alfredo Britto, por ocasião do incêndio que praticamente destruiu o prédio da Faculdade de Medicina da Bahia, na noite de 2 de março de 1905. Os jornais de Salvador registram os “ataques continuados, acrimoniosos e impidosos, saídos à luz nas ditas folhas, assinados pelo celebrado e ilustrado lente de Higiene, Dr. Luis Anselmo da Fonseca e dirigidos ao distinto Dr. Alfredo Brito, diretor da veneranda instituição de ensino” (Antônio Nogueira Brito).
De sua bibliografia constam:
  1. “Envenenamento pelas estricnéas.” Tese de concurso. – Bahia – 1877.
  2. “Estudo dos éteres.” Tese de concurso. – Bahia – 1880.
  3. “A escravidão, o clero e o abolicionismo.” - Bahia - 1887.
  4. “Projeto para reforma do ensino secundário, na Bahia; transformado em regulamento do Instituto Oficial do Ensino Secundário.” – Bahia - 1890.
  5. “Memória Histórica da Faculdade de Medicina da Bahia concernente ao ano de 1891.” – Bahia - 1893.
  6. “A questão Acadêmica de 1901 na Faculdade de Medicina da Bahia.” – Bahia - 1903.
  7. “Higiene Pública, aplicada à cidade da Bahia.” - Revista dos Cursos da Faculdade de Medicina da Bahia. Tom. 6, 1908.
  8. Discursos, Manifestos, Polêmicas etc.
Anselmo da Fonseca faleceu em 1929. Em sua homenagem existe um bairro em Salvador, formado pela rua principal que tem o mesmo nome, pelo jardim Santa Teresa, Baixão e Vale do Matatu.